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[sexta-feira, 3 de outubro de 2008]

Gênero breve de um modo de viver

Lá, do terceiro andar de um prédio intitulado de “mundo novo”, mas que de novo só o nome, porque nem o mundo e nem o prédio são tão modernos assim, escuta-se desde o mais puro baião ao mais carregado samba de gafieira de uma solitária festa, que tem como o único convidado ele mesmo, o desamparado 303. Essa pobre criatura não tem nome, é conhecido por algumas poucas pessoas pelo número da porta do seu prédio. Só anda a bordejar em uma dose e outra de álcool. Ele é pobre, mas pândego. Um boêmio baiano perdido nas noites incessantes de prazer do Rio de Janeiro.
É um indivíduo sem um conjunto de caracteres próprios e exclusivos de uma pessoa. É conhecido apenas pela seqüência de três números: 303. Esse amigo inominado carrega uma história de dor e alegria. Suas poucas piriguetes insaciáveis de puro amadorismo. Seu embaralhar de pernas, com suas caídas pelas portas de botecos. A saída da sua região árida do nordeste para o progresso ou podemos dizer regresso numa cidade grande.

Rio de Janeiro, cidade onde viveu a maior parte de sua vida o saudoso Machado de Assis. O escritor Paulo Barreto que viu na cidade maravilhosa o seu mundo. Ambos viram sua população crescer rápida e diversificadamente, alimentada por correntes migratórias nacionais e estrangeiras, e a modificar a face da cidade. Em uma dessas correntes se encontra o nosso amigo inominado.
Rio 40 graus, 303 está com 37 graus de febre. Prestes a cair em sono profundo e a se desvencilhar deste mundo para outro. Ele regressa em seus pensamentos e lembra-se da Bahia, terra onde nunca deveria ter saído, terra onde deveria ter ficado e dançado conforme a música. Hoje, ele se arrepende e reflete que a vida de boêmio é só para os cariocas e o Rio de Janeiro é terra que só Machado e João do Rio entendem mais do que qualquer carioca da gema. Hoje, lamenta-se por ter desistido da sua Bahia, de ter esquecido e abandonado o seu nome nas áridas terras. Não se recorda mais de nada, apenas de que era alguém e não sabia. Agora é um vagabundo. E tenta gritar deitado na rua de paralelepípedo como um último suspiro quase que inaudível: Bahia, que não me sai do pensamento.

José Lisboa Júnior
Estudante de jornalismo
Es



José Lisboa Júnior

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